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Vacina Antiofídica
Estudo inédito da Funed pode mudar a relação do homem com as serpentes
Pânico, asco, curiosidade, fascínio, veneração. São muitas as sensações que podem envolver uma pessoa ao se deparar com uma cobra, menos a indiferença. No terreno das emoções, as discussões podem se prolongar mas, quando se trata do veneno, as alternativas são limitadas. Se uma cobra venenosa picar uma pessoa ou um animal, o resultado pode ser a morte, se nenhuma providência for tomada. Até hoje, o tradicional e conhecido soro antiofídico é considerado a principal arma do homem contra o envenenamento por picada de serpente, mas uma pesquisa pioneira da Fundação Ezequiel Dias (Funed), financiada pela FAPEMIG, pode revolucionar esse quadro. A novidade é uma vacina que estimula a produção de anticorpos e imuniza o organismo contra o veneno.
A coordenadora da pesquisa, Profª Thaís Viana de Freitas, inspirou seu trabalho em pesquisas do Centro de Controle de Venenos e Antivenenos da Organização Mundial de Saúde, em Liverpool, Inglaterra, em 1986. A pesquisadora trouxe a tecnologia inglesa para Minas Gerais, avançou nos estudos, visando a produção de uma vacina e acaba de concluir a pesquisa "Desenvolvimento de Liposomas como Vetores de Princípios Ativos para Utilização Terapêutica e Produção de Vacinas".
O estudo tem como base a utilização de liposomas como veículos para antígenos (no caso, o veneno) e imunoestimulantes. Liposoma é uma estrutura sintética, que funciona como uma célula artificial e sua membrana pode ser preenchida com diversas substâncias para fins terapêuticos. As principais características que as tornam atraentes como vetores são: o caráter biodegradável, não-tóxico e não- imunogênico, a afinidade natural pelas células responsáveis pela apresentação de antígenos, a capacidade de induzir imunidade celular e humoral (mediada por anticorpos), a versatilidade físico-química e a capacidade de transportar, potencializar e reduzir a toxicidade de imunoestimulantes.
Inicialmente, o trabalho foi direcionado para o uso veterinário, por se tratar da área de maior demanda. Estima-se que cerca de um milhão de animais domésticos (bovinos, eqüinos e caprinos) sejam perdidos anualmente, no Brasil, em conseqüência de acidentes ofídicos. Nesses casos, a soroterapia não é utilizada devido ao alto custo do tratamento. O veneno da Crotalus durissus terrificus, a cascavel sul-americana, um dos mais letais, foi o único enfocado nesse primeiro estudo. Agora, a pesquisadora pretende abranger outras variedades de serpentes brasileiras, melhorar o método e baratear a produção em outro projeto de pesquisa, recentemente aprovado pela FAPEMIG, intitulado "Desenvolvimento de Liposomas como Vetores de Venenos e Toxinas para Imunização Protetora Contra o Envenenamento por Serpentes Brasileiras".
A vacina
Ao contrário do soro antiofídico, que serve como tratamento após a picada, a vacina será para efeito profilático. Segundo a Profª Thaís, a metodologia é a mesma para outros tipos de peçonhas animais, como veneno de escorpião e aranha, e a adaptação a humanos é apenas uma questão de tempo. É uma boa notícia para as pessoas que convivem diretamente com o risco de envenenamento, como guardas florestais, tratadores, pesquisadores e amantes do ecoturismo.
Um dos sócios da Brasil Aventuras Expedições - empresa mineira especializada em ecoturismo e turismo de aventura -, Marcelo Andrê, acredita que a imunização contra o veneno de serpentes seria de grande importância para profissionais como ele. "Nossos guias e clientes vão a lugares totalmente inóspitos, como o Pico da Neblina, onde a comunidade mais próxima fica a três dias de viagem de barco. Não podemos levar conosco o soro antiofídico, que deve ser mantido sob refrigeração. Em caso de picada, a vítima certamente morreria", afirma Andrê. Para se ter uma idéia do risco a que essas pessoas estão sujeitas, basta dizer que 74% das vítimas picadas por cascavel, não tratadas, morrem. Com a soroterapia, a mortalidade cai para 12%.
Por se tratar de um trabalho pioneiro, o Escritório de Gestão Tecnológica da FAPEMIG ofereceu à pesquisadora auxílio em um pedido de patente, para resguardar seus direitos e de todas as instituições envolvidas. "É um trabalho muito complexo, que demanda tempo e dinheiro. Acho que não animaria a fazer o pedido sozinha", conta Thaís.
O atual sistema de tratamento
Vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, a Funed é uma das três instituições produtoras de soro antiofídico do Brasil. Além dela, apenas o Instituto Butantã, em São Paulo, e o Vital Brasil, em Niterói/RJ, fornecem o soro para o Ministério da Saúde, que se encarrega de redistribuí-lo para o resto do País. No Brasil, são produzidos basicamente os seguintes soros antiofídicos:
| Anti-Botrópico: |
| contra o veneno da Jararaca (gênero bothrops); |
Anti-Crotálico: |
contra o veneno da Cascavel (gênero crotalus); |
Anti-Laquésico: |
contra o veneno da Surucucu (gênero lachesis); |
Anti-Elapídico: |
contra o veneno da Coral (gênero micrurus); |
Anti-Crotálico/Botrópico: |
contra venenos de Cascavel e Jararaca; |
Anti-Botrópico/Laquésico: |
contra venenos de Cascavel e Surucucu. |
Ao contrário do que se pensa, o soro não estimula a produção de anticorpos no organismo da vítima. Na verdade, ele já contém anticorpos, que são retirados do sangue de cavalos hiperimunizados. Injeta-se o veneno da serpente no animal, em pequenas doses, fazendo com que ele desenvolva os anticorpos. O problema é que o soro total, como utilizamos hoje, contém substâncias estranhas ao corpo do paciente. Por isso, a pessoa submetida ao tratamento também desenvolve anticorpos contra o próprio soro. Os efeitos colaterais vão desde uma urticária ou insuficiência renal até o choque anafilático, que pode ser fatal. Por isso, sempre é feito um teste alergênico antes da aplicação do soro antiofídico.
Venenosa ou peçonhenta?
Em princípio, todas as serpentes produzem veneno, mas nem todas são peçonhentas. A maioria das cobras não possui presas inoculadoras, o que as impossibilita introduzir a peçonha na vítima. Essas cobras, chamadas não-peçonhentas, apresentam presas não-articuladas e a secreção do veneno, que aflora em sua cavidade bucal, atua na digestão do alimento.
Alguns métodos de diferenciação entre serpentes peçonhentas e não-peçonhentas foram introduzidos no Brasil pelos europeus. No entanto, parâmetros como pupilas verticais e cabeça triangular referem-se a características de serpentes africanas e européias e não devem ser levados em consideração no Brasil e em toda a América do Sul. Aqui, a identificação deve ser feita observando-se a fosseta loreal, orifício localizado entre o olho e a narina, capaz de perceber variações de calor num raio de até 5m e detectar a presença, tamanho, distância e movimentos de animais de "sangue quente" (aves e mamíferos). Com exceção da coral, todas as serpentes peçonhentas possuem fosseta loreal.
A grande maioria das corais brasileiras apresenta anéis coloridos no corpo (vermelhos, amarelos, brancos e pretos). Algumas serpentes não-peçonhentas, conhecidas como falsas-corais, são extremamente parecidas com as corais verdadeiras e diferenciá-las não é uma tarefa fácil. Para não correr riscos, é melhor considerar toda serpente que possua fosseta loreal ou anéis coloridos no corpo como peçonhenta.
A ação do veneno
Existem basicamente três tipos de veneno: o botrópico, o crotálico e o micrúrico ou elapídico. O envenenamento botrópico, causado por jararaca, jararacuçu, entre outras, em geral, não leva à morte, mas lesa os tecidos (gangrena), causando a perda do membro atingido. Os venenos crotálico, produzido pela cascavel, e elapídico, da coral verdadeira, têm ação neurotóxica, ou seja, atacam o sistema nervoso. São mais nocivos e, quando não tratados, são quase sempre letais.
| Evite acidentes com serpentes. Veja as dicas: |
| - Geralmente as serpentes picam do joelho para baixo. O uso de botas de cano alto evita até 80% dos acidentes. Antes de calçá-las, certifique-se de que não há cobras, aranhas ou escorpiões escondidos. - Não enfie as mãos em tocas, troncos ocos, cupinzeiros ou outros locais que possam abrigar animais peçonhentos. - Mantenha quintais, plantações e terrenos sempre limpos. Acabe com os ratos. A maioria das cobras alimenta-se de roedores. - Preserve os predadores. Emas, seriemas, gaviões, gambás e a cobra muçurana são os predadores naturais das serpentes peçonhentas e garantem o equilíbrio do ecossistema. - Preserve o meio ambiente. Desmatamentos e queimadas podem provocar mudanças nos hábitos dos animais, que acabam buscando refúgio em celeiros, paióis e até dentro das casas. |
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