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Tipos de peçonha e de veneno


Uma reação leve a veneno urticante – a normal para picadas isoladas de formigas, abelhas, vespas, marimbondos e mamangavas – é uma forte sensação de queimadura, seguida de inchaço e vermelhidão no local da picada ou queimadura, que pode durar minutos ou horas; pode ser aliviada com gelo ou amônia. Uma reação alérgica moderada pode durar alguns dias e resulta em dor mais forte e inchaço que se estende a áreas vizinhas. Pode-se aplicar anti-histamínicos e ministrar corticóides, sob recomendação médica.

Uma séria reação alérgica começa alguns minutos depois da picada e afeta o corpo inteiro. A pessoa pode sentir náuseas, tonturas, fraqueza. Depois, espasmos, diarréia, coceira nos olhos e nariz, tosse, sensação de calor, vômitos e inchação do rosto e do corpo. Em seguida, pode haver dificuldade de respirar e engolir, queda de pressão e inconsciência. A maioria das mortes por esse motivo ocorre em cerca de 30 minutos, mas às vezes em menos.

Pessoas hipersensíveis – cerca de 1% da população – precisam ter à mão uma dose de adrenalina injetável, para aplicação imediata, anti-histamínicos e um torniquete para conter a difusão do veneno pelo corpo até que se possa conseguir ajuda médica. Pessoas normais que sofrem um grande número de picadas podem ter os mesmos sintomas e precisar do mesmo tratamento. Em alguns países, como os EUA, as picadas de insetos matam mais pessoas por ano que as de cobras e aranhas.

Efeitos semelhantes podem ser provocados por insetos e aracnídeos que não injetam ativamente esse veneno, mas provocam envenenamento passivo por contato. Os exemplos mais comuns no Brasil são as taturanas (larvas peludas de borboletas e mariposas). Os seringueiros da Amazônia, expostos a contato freqüente com taturanas urticantes (Premolis sp.), também desenvolvem reações crônicas, principalmente artrites.

Outro exemplo é o das caranguejeiras (Grammostola sp. e Pamphobeteus sp.). Estas aranhas cabeludas e de grandes dimensões, com ferrões grandes, são responsáveis por picadas extremamente dolorosas, mas não venenosas. Seu veneno está em pelos urticantes no abdômen dorsal, que provocam forte irritação. São comuns na Amazônia e em outras partes do Brasil.

Esse tipo de veneno também está presente nas anêmonas, medusas, caravelas-portuguesas, na maioria das águas-vivas e em alguns corais e ouriços do mar.

O veneno hemotóxico raramente mata um adulto saudável, a menos que a serpente consiga dar várias picadas ou atingir uma veia. Mas tem efeitos horríveis e que freqüentemente exigem a amputação do membro atingido, para evitar a morte por septicemia. Mesmo quando isso não ocorre, cicatrizes e seqüelas permanentes são prováveis. Geralmente, as cobras que possuem esse tipo de veneno possuem presas longas e muito eficazes: 70% a 80% das picadas inoculam a peçonha.

As exceções são a boomslang e a cobra-cipó, serpentes arbóreas africanas cujas presas estão no fundo da boca. Estas geralmente só picam pessoas que as manipulam descuidadamente.

O tipo mais comum provoca o equivalente a uma pré-digestão da carne da vítima: os vasos sangüíneos perdem sua capacidade de reter o sangue e a capacidade de coagulação e o sistema imunológico são anulados. Ocorre hemorragia dos capilares, a carne se enche de líquidos e é destruída por bactérias (gangrena). Pode haver sangue na urina devido a hemorragias internas nos rins e, em casos graves, morte por falência renal.

No local da picada, há dor intensa, edema, bolhas, inchaço e necrose dos tecidos. O paciente sofre também de hemorragia pelas mucosas (estômago, intestino, rim, boca, ouvido, útero), lesão dos tecidos (gangrena), taquicardia e alterações nervosas. A recuperação total de uma picada pode demorar meses.

A morte, quando ocorre, geralmente leva dias. Algumas pessoas, porém, entram em estado de choque ou ter sintomas de ansiedade que podem não só ser confundidos com o efeito de venenos neurotóxicos, como de fato matar em poucos minutos, principalmente em regiões onde há lendas e tradições exageradas sobre cobras. É o que acontece com a chamada “víbora de cem passos” da ?sia – cujas vítimas supostamente morrem antes de caminhar essa distância – e com a víbora serrilhada, encontrada na ?sia e ?frica. Existe mesmo uma lenda asiática sobre uma “víbora de dois passos”.

Alguns venenos hemotóxicos, como o do ornitorrinco e o de certas víboras, têm o efeito contrário: provocam a coagulação do sangue, que pode resultar em tromboses fatais.

No Brasil, há dois tipos de venenos ofídicos hemotóxicos – o botrópico e o laquético. Seus efeitos são muito semelhantes, mas exigem soros diferentes. O veneno botrópico responde pela grande maioria dos acidentes no Brasil; é produzido por cobras como a jararaca (Bothrops jararaca), jararacuçu (Bothrops jararacussu), urutu (Bothrops alternatus), cotiara (Bothrops fonsecai) e caiçaca (Bothrops moojeni), que existem em todo o Brasil e em todo tipo de terreno e vegetação. O veneno laquético é o da surucucu ou pico-de-jaca (Lachesis muta), encontrada na Amazônia e na Mata Atlântica, do Rio de Janeiro até a Paraíba. Cobras venenosas grandes, como a surucucu e a urutu, têm uma glândula da peçonha mais avantajada e costumam ser mais agressivas.

Fora do Brasil, outras cobras com venenos semelhantes (mas que também exigem antídotos específicos) incluem a maioria das víboras (família Viperidae) encontradas na Europa, ?sia e América do Norte, as cascavéis, mocassins e copperheads norte-americanas, a habu, encontrada na ?sia (principalmente China) e as africana boomslang e twig snake.

Duas espécies de lagartos também possuem venenos hemotóxicos: o monstro de Gila (Heloderma suspectum), que vive nos desertos do Sudoeste dos EUA e noroeste do México e o lagarto-escorpião ou lagarto perolado (Heloderma horridum), das selvas do México e América Central. De certa forma, são piores do que as serpentes, pois em vez de picar e largar a vítima, continuam agarrados a ela e mastigando sua carne, até que sejam mortos ou gravemente feridos (queimá-los na garganta também funciona).

Algumas aranhas também possuem veneno hemotóxico. Um exemplo é a aranha marrom (Loxosceles sp.) com 1 cm de corpo e pernas longas e finas. É encontrada em pilhas de tijolos, telhas, barrancos e nas residências. Adora se esconder nas roupas e pica quando é comprimida contra o corpo. Na hora quase não causa dor e às vezes a pessoa nem sabe que foi picada. A partir de 12 horas após a picada, porém, surge a dor local, inchaço, mal-estar geral, náuseas e febre. Pode levar à gangrena e à necrose.

A tarântula (Lycosa sp.), conhecida também como aranha de jardim e aranha de grama, também inocula um veneno hemotóxico. Provoca sensação de queimadura, eritema e edemas e a necrose local pode abrir caminho para a infecção por tétano. Pessoas sensíveis podem ter sintomas semelhantes ao de uma picada de cobra. Com até 3 cm de corpo e 5 cm de pernas, possui no dorso do abdômen um desenho parecido com uma ponta de flecha. Não há tratamento específico.

Centopéias (Cryptops sp., Otostigmus sp. e Scolopendra sp.), conhecidas também como lacraias, inoculam venenos hemotóxicos que provocam sangramento, inchaço e necrose superficial e, em algumas pessoas, também ansiedade, vômitos e mal-estar geral. Não há tratamento específico.

O ornitorrinco macho possui, nas patas traseiras, esporões que injetam um veneno hemotóxico, cuja função é puramente defensiva. Ao contrário do veneno da jararaca, provoca a coagulação do sangue, em vez de impedi-la. Provoca inchação e forte dor por até três meses, contra a qual nenhum anestésico (nem sequer a morfina) é eficaz. Normalmente, não é fatal a seres humanos.

Certas taturanas (Lonomia sp.) também possuem um veneno de tipo hemotóxico. Além da imediata sensação de queimadura, podem surgir, duas a 72 horas depois do contato, equimoses, hematomas, sangramento nas gengivas e sangue na urina. Não há soro disponível para este tipo de veneno.

O veneno neurotóxico ataca o sistema nervoso, provoca paralisia e é o mais perigoso, pois pode matar em questão de horas por asfixia. A gravidade da picada aumenta com a proximidade dos centros nervosos (cérebro). Por outro lado, a maior parte das cobras que possui esse tipo de veneno tem presas curtas e pouco móveis, de forma que apenas 50% das picadas inoculam de fato a peçonha.

No Brasil, o tipo mais conhecido é o veneno elapídico, da coral verdadeira. De ação puramente neurotóxica, é relativamente raro: apenas 2% dos acidentes. Essas cobras existem em todo o Brasil, em qualquer terreno, mas são tímidas e suas presas não consegue penetrar roupas. A maioria dos acidentes ocorre em pessoas que as manipulam intencionalmente. Os sintomas podem demorar 12 horas para aparecer: o paciente apresenta dor intensa no local da picada, salivação abundante, lacrimejamento, perturbações nervosas, queda das pálpebras, tremura e angústia, respiração difícil, pele azulada, andar cambaleante, cansaço, dores musculares, dificuldade em articular as palavras, ligeiras perturbações visuais. A morte vem por asfixia.

Outras serpentes com veneno neurotóxico são a krait da ?ndia e Sudeste Asiático, as najas asiáticas e africanas, as mambas africanas, a taipã australiana e as serpentes marinhas do Sudeste asiático. Com exceção da krait, também considerada tímida, essas cobras são mais agressivas e perigosas que a coral.

Embora sua picada não seja particularmente dolorosa, o veneno da serpente marinha é o mais potente de todas as cobras, seguido pelo da taipã. Em média, a picada dessas cobras mata em seis a doze horas. Se o veneno é injetado diretamente numa veia, pode matar em menos de uma hora.

Algumas espécies de naja podem cuspir seu veneno a certa distância (até 3 m), geralmente visando os olhos da vítima. Se acerta, isso causa dor intensa, perturbação da visão e, às vezes, cegueira permanente.

Entre as aranhas, a de veneno neurotóxico mais perigoso é a viúva-negra (Lactrodectus sp.). O tratamento envolve a aplicação de soro específico e de analgésicos poderosos.

Mais comuns no País e igualmente perigosos são o escorpião amarelo (Tityus serrulatus), com uma mancha escura e uma serrilha no fim da cauda e escorpião preto (Tityus bahiensis), também conhecido como escorpião marrom, de cor escura e cauda avermelhada. Ambos são de hábitos noturnos e escondem-se durante o dia sob madeiras ou pedras, ou em cupinzeiros e também freqüentam casas. A vítima pode apresentar náuseas ou vômitos, sudorese intensa, salivação, tremores e aumento da pressão arterial. Existe soro antiescorpiônico.

Outro exemplo é a aranha armadeira (Phoneutria sp.), que causa a maioria dos acidentes com aranhas no Brasil. Com até 5 cm de corpo e até 15 cm de envergadura de pernas, vive em folhagens, bananeiras e dentro de casa e é reconhecida pela posição “em pé" sobre as patas de trás. O veneno age no sistema nervoso periférico, causando dificuldade respiratória e tremores musculares, mas não atinge o sistema nervoso central. Em crianças e ocorrências graves com adultos, aplica-se o soro antiaracnídico, depois de prova de alergia.

O peixe fugu (espécie japonesa de baiacu), também possui um forte veneno neurotóxico, mil vezes mais potente que o cianureto. O sashimi de fugu sai pelo equivalente a 150 a 200 dólares, mas só deve ser preparado por especialistas bem treinados, que sabem como extrair a glândula que contém o veneno. Cerca de 60% das pessoas que ingerem o baiacu sem que o veneno tenha sido devidamente eliminado morrem de falência respiratória em 6 a 24 horas, depois de sentir sintomas como fraqueza, tontura, boca e língua formigantes, náusea, diarréia, suor, paralisia, convulsões e sufocação.

Há uma espécie de água-viva, Chironex fleckeri, encontrada no litoral norte da Austrália e na região Indo-Pacífica, que possui um veneno neurotóxico, cardiotóxico e dermatonecrótico, capaz de matar uma pessoa de insuficiência respiratória em cinco minutos. Os sobreviventes sofrem sérias queimaduras na pele, que geralmente deixam cicatrizes permanentes. É provavelmente o animal venenoso mais perigoso da Terra.

Uma espécie australiana de polvo, Hapalochaena maculosa, também causa ferroadas neurotóxicas em pessoas que o perturbem, casualmente ou propositalmente.

O veneno misto tem efeito hemotóxico e neurotóxico ao mesmo tempo, o que pode dificultar o diagnóstico. O componente neurotóxico é geralmente o mais perigoso, mas podem tanto aparecer os sintomas de hemorragia quanto os de paralisia. Isso pode resultar em tratamento não apropriado, principalmente em lugares onde outros tipos de picada são mais comuns.

Além disso, em alguns casos, como o da víbora do Gabão, a picada não provoca dor intensa – a picada pode não ser percebida ou ser confundida com a de um inseto, até que a vítima morre sem receber soro antiofídico. É o caso de certas cascavéis (incluindo a brasileira e a do deserto de Mojave, nos EUA) e da dabóia ou víbora de Russell, encontrada no sul da ?sia.

No Brasil, o único tipo de veneno misto é o crotálico, produzido pela cascavel tropical. Bem mais perigosa que as espécies norte-americanas, é encontrada nas regiões de campo do Centro, Sul, Nordeste e da Amazônia, mas nunca no interior das florestas e responde por 18% dos acidentes ofídicos no Brasil. É considerada principalmente neurotóxica, mas também tem alguns efeitos hemotóxicos. A picada não produz dor marcante, mas o paciente apresenta fraqueza progressiva e rápida, queda das pálpebras (“cara de bêbado”), perturbações visuais até a cegueira, paralisia dos músculos do pescoço (cabeça caída), vômitos, diarréia, cheiro de urina, urina sanguinolenta; pulso fraco e sonolência. A morte vem por paralisia do sistema respiratório e ocorre em 75% dos casos não tratados. A peçonha crotálica é mais tóxica do que a botrópica, mas ambas são menos perigosas que a elapídica.

No mar, ferroadas das arraias, peixes-pedras e escorpiões-do-mar inoculam veneno do tipo cardiotóxico. Afeta o sistema cardiovascular, o que pode produzir tanto palidez como vermelhidão no corpo, espasmos, arritmia cardíaca e, eventualmente, parada cardíaca. ?gua quente (50ºC) por 30 a 60 minutos decompõe esse veneno, mas também há risco de infecção, que pode exigir antibióticos e vacina antitetânica. A ferida provocada pelo ferrão é, em si, séria e pode levar meses para ser completamente curada.

O veneno que os sapos e algumas rãs segregam através da pele também é cardiotóxico e pode matar por parada cardíaca, depois de fortes constrições musculares, paralisia, salivação e dispnéia. Normalmente só são fatais para animais (incluindo cães domésticos) que os comem. Seres humanos geralmente só são afetados quando manipulam sapos e acidentalmente levam o veneno aos olhos ou à boca, normalmente em doses não fatais, mas há histórias sobre rãs tão venenosas que é possível morrer só por tocá-las.

O curare, veneno usado pelos índios em suas flechas e zarabatanas, é tirado de certas rãs, que costumam ser de cor berrante, com a qual advertem os predadores de que são perigosas. Uma das mais conhecidas é a Phyllobates terribilis, de cor dourada e de 1 cm a 5 cm de comprimento, usada pelos índios da Colômbia. A pele de uma só dessas rãs contém veneno suficiente para matar 20 mil camundongos ou 100 homens adultos. O veneno de uma seta ou zarabatana permanece ativo por até dois anos.