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Ano de publicação:

Atividade Antiofídica de Extratos de Jatropha elliptica (Pohl.) Muell. Arg.



Amui, SF(1); Marcussi, S(2); Urzêda, MA(3); Silveira, LB(3); Coelho, MFB(4); Pereira, AMS(3); França, SC(3); Soares, AM(1)


(1) FCFRP-USP; (2) FMRP-USP; (3) Dep. Biotecnologia-UNAERP; (4) UFMT


andreims@fcfrp.usp.br

Jatropha elliptica (Pohl.) Muell. Arg., uma planta herbácea-subarbustiva da família Euphorbiaceae, conhecida popularmente como “batata de tiu, jalapão, raiz de cobra, e tiu”, é uma espécie característica dos cerrados brasileiros muito utilizada na medicina popular como depurativo do sangue, no tratamento de sífilis e em envenenamentos ofídicos, entre outras utilizações (Pio Corrêa, 1984; Van Den Berg & Silva, 1988). Jatropha elliptica foi selecionada para este estudo por apresentar atividade antiofídica de uso preconizado na medicina popular na região do Brasil Central (Silva, 1998). O uso de extratos de plantas como antídoto para venenos de serpentes é uma antiga opção utilizada em muitas comunidades que não têm acesso à soroterapia, podendo ser um substituto alternativo e/ou complementar. Acidentes com animais peçonhentos constituem um problema de saúde pública, tanto pela freqüência com que ocorrem, quanto pela gravidade de muitos deles (Ribeiro, 1990). No Brasil ocorrem entre 19 a 22 mil casos de acidentes ofídicos por ano, dos quais 90,5% são causados por serpentes do gênero Bothrops (Pinho e Pereira, 2001). Diversas espécies vegetais tem sido descritas como antiofídicas e alguns princípios ativos foram isolados e caracterizados, como por exemplo, de Eclipta prostata, Tabernaemontana catharinensis, Casearia sylvestris, Mandevilla velutina, Sapindus sapindus e Cordia verbenacea.

Objetivo: O objetivo desse trabalho foi avaliar as propriedades antiofídicas de extratos (xilopódio e raiz: entre-casca e cerne) da planta J. elliptica sobre as ações tóxicas e farmacológicas de venenos de serpentes dos gêneros Bothrops (Figura 1) e Crotalus (Figura 2).

Metodologia:  As plantas utilizadas nos experimentos foram coletadas no município de Cuiabá e transferidas para o Departamento de Biotecnologia Vegetal-UNAERP, onde foi realizado a preparação dos extratos aquosos. O material vegetal foi preparado à seco em estufa (50ºC) e à fresco, separando-se em xilopódio e raíz, sendo que deste material foram utilizados a entrecasca e o cerne (Figura 3). Os extratos foram preparados com extração à quente, e as amostras obtidas da depuração em água fervente foram liofilizadas possibilitando a pesagem e conseqüente quantificação do extrato. A atividade hemolítica indireta (Gutiérrez et al., 1988) foi realizada em placas, e o meio de cultura utilizado foi suplementado com gema de ovo e eritrócitos humanos, as amostras foram aplicadas (Volume final = 40 µl) em orifícios no gel, permanecendo encubadas “over nigth” a 37°C, após a incubação, dois diâmetros dos halos foram medidos e a atividade fosfolipásica foi expressa em centímetros. Para o efeito de hemorragia (Nikai, et al., 1984), foram utilizados camundongos (n = 6 por amostra), sendo as amostras preparadas com volume final de 50 µl, as injeções foram realizadas por via intradérmica no dorso dos animais, sendo estes sacrificados duas horas após a injeção, as peles foram retiradas e dois diâmetros dos halos de hemorragia foram medidos. Através de injeção intraplantar em camundongos, com volume final de 50 µl/ animal, foi avaliado o efeito edematogênico por medição do volume das patas com paquímetro de baixa pressão, em diferentes intervalos de tempo após a administração das amostars. A atividade proteolítica sobre o fibrinogênio pôde ser avaliada através de incubação deste com diferentes concentrações de extrato, sendo visualizado em eletroforese em gel de poliacrilamida (SDS-PAGE). A interacão do extrato com proteínas isoladas de veneno também foi avaliado por incubação seguido de SDS-PAGE. O efeito inibitório do extrato sobre s Letalidade induzida em camundongos por veneno bruto e proteínas isoladas foi avaliado com incubação em diferentes proporções, por injeção das amostras via intraperitonial e observação por período de 24h. A inibição das atividades enzimática e tóxica (fosfolipásica, hemorrágica, edematogênica, letalidade e miotóxica) foram avaliadas in vitro e in vivo através de incubação por 30 min a 37ºC de venenos e proteínas isoladas com os diferentes extratos brutos de J. elliptica.

Resultados e Discussões:  O extrato aquoso fresco da entrecasca de xilopódio (XFEC) de J. elliptica foi eficaz em inibir 100% da atividade fosfolipásica em todas as concentrações testadas (1:50; 1:100 e 1:200 veneno-extrato). O extrato aquoso seco da entrecasca do xilopódio (XSEC) também inibiu 100% da atividade fosfolipásica nas concentrações de 1:100 e 1:200, quando foram avaliados os venenos de B. moojeni, B. jararacussu, C. d. terríficus, B. neuwiedi e B. alternatus (Figura 5). A atividade hemorrágica foi totalmente inibida utilizando-se o XFEC e XSEC na concentração de 1:50, para todos os venenos. O XFEC na concentração de 1:100 mostrou-se eficaz em inibir o edema induzido pelos venenos de B. moojeni, B. jararacussu e C. d. terríficus não apresentando atividade inibitória sobre B. alternatus, sendo que as maiores inibições desta atividade foram obtidas para B. moojeni e B. jararacussu(Figura 4). Para a mesma atividade o XSEC, na proporção de 1:100 mostrou-se inibitório sobre todos os venenos testados, apresentando maior eficácia em inibir o edema induzido por B. jararacussu, B. moojeni e B. alternatus (Figura 6). O XFEC não mostrou-se fibrinogênolítico, não havendo separação das cadeias do fibrinogênio apresentando-se idêntico ao observado na amostra controle. No SDS-PAGE pôde-se observar que as proteínas incubadas com o XFEC não foram degradadas ( Figura 7). O XFEC na proporção de 1:50 quando incubado com o veneno de C.d.terrificus e Crotoxina, foi capaz de prolongar o tempo de vida dos animais durante o ensaio de letalidade ( Figura 8). Observa-se uma pequena vantagem para o extrato advindo da entrecasca do xilopódio a fresco, em relação ao seco, onde a inibição da atividade enzimática (fosfolipásica), e hemorrágica foi total em todas as concentrações. Este fato sugere a existência de uma concentração maior do princípio ativo no xilopódio, na forma fresca. A maior atividade antiofídica foi observada para XFEC, uma vez que este extrato mostrou-se eficiente na inibição de todos os efeitos testados induzidos por venenos e protínas isoladas, sem interferir na integridade das proteínas, o que sugere mecanismos de interação ainda desconhecidos e que devem ser pesquisados futuramente. Os resultados confirmam as propriedades antiofídicas desta planta já explorada popularmente, contribuindo com a preservação da espécie, uma vez que o uso popular desta planta está voltado para o sistema radicular, extraindo-o por completo e consumindo a entrecasca da raiz, destruindo a espécie sem conseguir uma inibição satisfatória do envenenamento ofídico, estando as substâncias com propriedades antiofídicas localizadas na região superior do sistema radicular entre o caule e a raiz ( na entrecasca do xilopódio).

Figura 1. Serpentes do gênero Bothrops; (a) Bothrops alternatus; (b) Bothrops jaracussu; (c) Bothrops neuwiedi

 

Figura 2. Serpentes do gênero Crotalus; (Crotalus-durissus-terrificus)

Figura 3. Material Vegetal de Jatropha elliptica;(a) Xilopódio, (b) Raiz.

Fig 4. (A) Inibição do Efeito Hemorrágico induzidos pelos venenos de serpente, por XFEC (B) Foto do Resultado do Efeito Hemorrágico e sua total inibição.

Fig. 5. (A) Inibição da Atividade Fosfolipásica induzida por XFEC ; (B) Inibição da Atividade Fosfolipásica induzida por XSEC

Fig. 6. Inibição da atividade edematogênica

Fig. 7. (A) Atividade Fibrinogênolítica apresentada em SDS-PAGE; (B) Interação XFEC : Proteína

Fig. 8. Inibição da letalidade

Conclusão: Os extratos aquosos preparados à fresco e à seco da entrecasca de xilopódio de J. elliptica foram eficazes em inibir as atividades testadas para os venenos de B. moojeni, B. jararacussu, C. d. terríficus, B. neuwiedi e B. alternatus e algumas de suas proteínas isoladas, enquanto que os extratos obtidos da parte interna não foram eficientes em inibir os efeitos induzidos pelos mesmos venenos testados. O estudo de extratos de plantas com propriedades antiofídicas podem resultar na descoberta de substâncias que possam ser utilizadas como complemento na soroterapia e até resultar na descoberta de futuros fármacos.

Referências Bibliográficas:

-GUTIÉRREZ, J.M., AVILA, C., ROJAS, E. AND CERDAS, L. An alternative in vitro method for testing the potency of the polyvalent antivenom produced in Costa Rica. Toxicon, v. 26, p. 411-413, 1988.

-NIKAI, T.; MORI, N.; KISHIDA, M.; SUGIHARA, H.; TU, A.T. Isolation and bichemical characterization of hemorrhagic toxin from the venom of Crotalus atrox. Arch Biochem Biophys, 231-309, 1984. -PINHO, F.M.O., PEREIRA, I.D. Ofidismo. Ass. Med. Bras., v. 47, p. 24-29, 2001. PIO CORRÊA, M. Dicionário das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, IBDF, v.3, 1984. 646 p.

-RIBEIRO, L.A. Epidemiology of ophidic accidents. Mem. Inst. Butantan, v. 52, p. 15-16, 1990.

-SILVA, S.M.P.; COELHO, M.F.B.; SILVA, A.M. Aspectos fenológicos de purga-de-lagarto (Jatropha elliptica M. Arg.-Euphorbiaceae) em Santo Antonio de Leverger-MT. Revista Brasileira de Biologia, v.58, n.2, p. 301-306, 1998.

-VAN DEN BERG, M.E; SILVA, M.H.L. Contribuição à flora medicinal de Mato Grosso do Sul. Acta Amazônica, Manaus, v.18, p. 9-22,1988. Suplemento.